Nietzsche gostava de apavorar seus leitores com a ideia do eterno retorno. Em Ecce homo, conta que essa fórmula foi a concepção fundamental de seu Assim falou Zaratustra. É deste último o excerto:

E não estão as coisas tão firmemente encadeadas, que este momento arrasta consigo todas as coisas vindouras? Portanto –– também a si mesmo!

Porque aquilo, de todas as coisas, que pode caminhar, deverá ainda, uma vez, percorrer – também esta longa rua que leva para frente! –

E essa lenta aranha que rasteja ao luar, o próprio luar, e eu e tu no portal, cochichando um com o outro, cochichando de coisas eternas – não devemos, todos, já ter estado aqui?

– e voltar a estar e percorrer essa outra rua que leva para frente, diante de nós, essa longa, temerosa rua

– não devemos retornar eternamente? –

Assim falei cada vez mais baixinho: porque tinha medo dos meus próprios pensamentos e dos que eles ocultavam (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 194).

O conceito de eternidade tem seu lado aterrador. Nietzsche sabia, Sartre provou isso entre quatro paredes – e mesmo a imitação, incluída nesse contexto, transforma-se em algo absurdamente insuportável.

Nesse caminho lógico, o passo seguinte seria criar algo novo em defesa de nossa existência particular, desvinculada da transitoriedade da repetição e da eternidade do momento repetido, algo personificado no que vamos chamar aqui de mito da originalidade, tão absurdamente insuportável quanto.

E combater um, outro, ambos, sem perspectiva de conclusão, presos a este momento, num embate eterno, é tão assustador quanto. Então começam as ideias suicidas, prontamente evitadas diante da visão de um eterno retorno ao suicídio, tornando-se assim todos os momentos insuportáveis, nauseantes, com os quais temos de conviver.

É desse cenário que parte A mesma coisa (Rio de Janeiro: Topbooks, 2012), quinto volume de poesia de Felipe Fortuna. A começar pela quarta capa do livro, com uma ilustração que remete à ficção, La belle noiseuse, de Maître Frenhofer, que por sua vez remete a uma carta do teste de Rorschach, abrindo-se a uma infinidade de alusões diferentes para a mesma coisa, tal qual o livro, que começa assim, com um poema homônimo:

Eu sou igual a um anagrama. Meu

indeciso amor a Roma me

levou a confundir a imitação. Eu vou

pelo caminho bifurcado, que me basta

e me provoca.

Eu me repito

mesmo

quando não copio.

E o mesmo

acontece

quando me repito: precipício

arremessado ao precipício.

Eu sou o que sou, responde o Criador.

Portanto: não há limites. Esse infinito

se fez das coisas que já foram. Começarei

de novo, mas apenas começarei, porque

nada é novo para os que sabem o que ainda vem.

Valho-me novamente da ilustração da quarta capa para interpretar o primeiro verso de A mesma coisa. Nesse sentido, como lemos, não há limites, nada é novo. Atingimos o reino dos comuns. “Você veio juntar-se aos demais”, escreve o poeta. Fato que ele explicita continuamente, bem como o senso de repetição. Em outro momento, lemos:

Somos cópias. Fazemos clichês.

Vendemos a mesma ideia

simultaneamente, com permanente disfarce.

Em meio a referências implícitas harmônicas ao seu questionamento, como Ezra Pound, Haroldo de Campos, Gertrude Stein, e explícitas, como Hart Crane, o autor perpassa o tema (ciente das facilidades dos que são coniventes com a situação descrita, a qual ele próprio, o poeta, pretende convencer-se a praticar).

Ninguém arrisca.

Você fica,

no final morre o dublê.

Não importa se o dublê é você mesmo ou a cópia de si, desde que se preserve aquilo que nos faz semelhantes. É então que podemos invocar Aristóteles e sua Arte poética. É também quando o poeta, revestido da tradição por uma cadência de oito silabas poéticas, atravessa a própria ideia da repetição com o segundo poema do livro, sabiamente chamado de “O Suicida”.

A referência a Aristóteles, aqui, é por ser dele a ideia de que a arte poética em geral se enquadra no conceito de imitação. E de que essa imitação é produzida por meio do ritmo, da linguagem e da harmonia, empregados separadamente ou em conjunto.

Assim como Ezra Pound fez uso da melopeia, fanopeia e logopeia (música, imagem e intelecto) para extrair a invenção da imitação, Felipe Fortuna, sabendo que nem isso é possível hoje sem que se caia, uma vez mais, no lugar-comum, fundamenta a sua obra numa concepção suicida, por mais contraditório que isso possa parecer.

É neste segundo canto que Felipe Fortuna arremessa sua tese da janela do último andar, colocando-se à disposição da desistência, pedindo para que a repetição o absolva do tempo e da culpa de não ter conseguido apressar aquilo que outros poetas já fizeram.

E não quero seguir a esmo

o fio que se produz sem cortes

sobre a rua longa onde piso.

Não sigo.

Prefiro que tudo

me deixe sem chão e sem curvas

até que um cansaço sem luzes

traduza meu corpo e o cubra

com uma palavra estrangeira.

E, seguindo em seu não seguir, o autor sabe e declara o adeus de seu abandono, expondo uma tese suicida, como um livro para acabar com todos os livros, a ser defendida contra a rosa.

[…] Sou vertical.

Porém, deito

e vou pronunciando adeus.

Os meus amigos me olham morto.

Temos de brindar a coragem com que o poeta abraça a sua própria causa, sabendo que sua mesmice é uma discordância astuta em relação à mesmice do campo literário. Nem que, para isso, seja necessário um terceiro e último poema, a fechar essa dialética da imitação, que surge contra si mesmo, chamado de “Contra a Poesia”.

Os primeiros versos desse canto são uma faca em qualquer peito drummondiano e, concomitantemente, uma conclusão ao poema anterior (também um fluxo em resposta ao represamento do anterior): a frustração de não ter inventado a roda dá origem a uma nova torrente, um motivo para o canto, que floresce em direção contrária à poesia.

Abre-se uma flor e nada há:

a origem do mundo não foi vista

e pela via negativa

o poeta se inclina sem medida.

Agora precisa seguir.

As palavras servem à poesia, mas têm razão?

Neste último canto, o poeta sabe que a poesia precisa seguir, embora ele mesmo não venha seguindo com os poetas, pois eles mentem

sem história

sem juízo. Para eles,

o fim é o começo, mas eu não sigo.

Em contrapartida, recolhe-se ao sabor da vida propriamente dita, que oferece absurdo suficiente para infinitas vidas, deixando à poesia que se lê na folha de papel não mais que a celebridade passageira que faz a fama do poeta e o impede, por isso mesmo, de ser poeta.

Basta um pouco de verdade:

tudo em torno

passa a ser

intensamente um novo sonho,

sem distração.

Com isso ele está apto a retomar a construção de sua falácia transcendental e, tal qual o Criador, pronunciar: “eu sou o que sou”, e conclamar os outros a entrarem na barca.

Pergunte a ele, no sol a pino,

qual o sentido?

Deixe que diga com submarina

voz e seus cabelos

o que pretendeu?

Ninguém virá

ninguém virá em seu socorro

e a cidade apagará.

É honesto em seu questionamento, do começo ao fim, não vende utopias, criando, assim, a maior delas. É nisso mesmo, em seu próprio paradoxo, que ele luta diante de um possível contra-argumento. Aqueles que poderiam tomá-lo, sectariamente, por um elogio da mesmice fazem, eles próprios, uma concessão ao banal. Afinal, não é porque uma questão está batida que ela esteja esgotada. Pelo contrário, em certos casos, prova-se que abandonar um tema pelo excesso de repetição é ilusório e, acima de tudo, um meio para a banalidade.

(publicado originalmente na revista Sibila, em 7 de agosto de 2013)

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